Arte & Sustentabilidade: Resiliência, Legado e a Jornada de Ser Por Cynthia M. Cominesi

Ao reler meu artigo sobre o falecimento de Kongjian Yu, aquele arquiteto chinês que tanto falou sobre resiliência e legado, foram essas duas palavras que me ficaram na mente: resiliência e legado. São conceitos que, ao longo da minha trajetória escrevendo sobre sustentabilidade, reaparecem repetidas vezes — porque, para mim, são o cerne do que significa viver de modo sustentável.

Hoje, quero dividir com você uma história que mistura arte, amizade, desafios pessoais e o impulso transformador da criatividade. É o relato da relação que construí com a artista e educadora Vilma Machado, e como, por meio da arte, reencontrei a sustentabilidade do meu ser — e hoje uso isso para empoderar outras mulheres.


O encontro improvável: China, arte e propósito

Em 2012, estava em Pequim participando de um evento ligado à soja responsável — a “Mesa-redonda da soja – RTRS” — quando conheci Vilma Machado. Imagine o quão improvável era esse encontro: eu, uma agrônoma brasileira, e ela, uma artista brasileira morando na Holanda, nos encontrando lá, no epicentro da China.

Vilma já atuava com arte e educação, e eu me preparava para lançar um projeto chamado “Gente que Produz e Preserva”, cujo foco era trabalhar com mulheres produtoras rurais, unindo produção de soja e preservação ambiental. Quando convidei Vilma para integrar esse projeto — liderando workshops com as mulheres, trazendo um olhar sensível e artístico — aquilo me parecia arriscado, uma ponte entre mundos tão distintos. Mas foi um acerto.

Durante 2014, ela conduziu oficinas com mulheres rurais que iam além de técnica: eram sobre empoderamento, expressão, identidade. Vi mulheres florescerem, encontrarem voz, enxergarem seu território não apenas como campo produtivo, mas como fonte de cultura, raízes e beleza. Foi, para muitos, uma transformação verdadeira — e para mim, uma semente silenciosa.

Naquele tempo, eu olhava mais para os resultados tangíveis: quantas mulheres participaram, quais eram os indicadores. Mas não me colocava como interlocutora emocional do projeto. Com o tempo, e com a amizade, passei a perceber o valor da arte como ferramenta de interioridade — de cura e de força silenciosa.


Resiliência: da arte que cura à ponte para a sustentabilidade

Depois que o projeto terminou, mantivemos contato. Em 2018, criamos um grupo de mulheres para realizarmos ações de sustentabilidade do ser. Entretanto, eu já vinha nessa estrada há anos, mas estava cansada, descrente, questionando se seria possível que a sustentabilidade fosse algo que ultrapassasse o marketing e as metas vazias. Havia em mim uma fadiga da utopia.

Então, em 2021/2022, Vilma lançou uma roda de conversas com uma nova proposta: usar a fotografia como ferramenta para trabalhar sentimentos — aquilo que eu chamei de “fotografia interior”. Resolvi entrar, desta vez não como mentora, mas como participante.

Foi mágico. Ao olhar-me através da lente da arte, pude observar riscos, perdoar antigas versões de mim, identificar feridas. A arte me devolveu a resiliência. Surgiu uma nova Cynthia, com renovada fé no propósito. E ali, mais do que nunca, percebi que minha missão estaria enraizada na sustentabilidade do ser — primeiro internamente, depois externamente, do local ao global.

Desde então, tudo que construí fez parte dessa missão: escrever artigos, livros, criar a comunidade “Mulheres Sustentáveis”. Porque hoje me vejo como uma mulher inteira — resiliente, dona de si — que quer compartilhar essa trajetória com outras mulheres.


Arte e sustentabilidade: encontro de mundos que se multiplicam

Mas arte + sustentabilidade não são apenas poesia pessoal. Há movimentos e teorias que mostram como essa confluência está viva no mundo, gerando transformações reais:

  • O eco-art (ou ecological art) propõe que a prática artística dialoga diretamente com sistemas ecológicos, muitas vezes com intervenções restaurativas ou socialmente engajadas. 
  • Projetos artísticos que trabalham com materiais reciclados, pigmentos naturais e técnicas de baixo impacto dão corpo às ideias: arte que cuida e questiona. 
  • A arte como ferramental de justiça ambiental: em espaços comunitários, intervenções artísticas ajudam a sensibilizar e mobilizar comunidades para causas ambientais. 
  • Em ambientes acadêmicos e culturais, instituições artísticas começam a incorporar práticas de sustentabilidade em sua operação — escolhendo materiais éticos, reduzindo impacto e colocando arte como lente de reflexão sobre o mundo. 
  • Ferramentas como as 9 Dimensões da prática criativa ajudam a avaliar o potencial transformador da arte na sustentabilidade, conectando simbolismo, poder, engajamento e imaginação. 

Tudo isso reforça algo que vivi: arte e sustentabilidade têm o poder de dialogar profundamente com nossas emoções, valores e ações.

Como ser uma mulher resiliente e sustentável — na arte da vida

Com essa trama pessoal e conceitual em mente, compartilho algumas reflexões e sugestões para quem, como eu, quer viver essa interseção:

  1. Permita-se vulnerável
    A resiliência não é dureza; é a capacidade de se reerguer e se transformar. A arte nos convida a enxergar o que dói e acolher nosso processo.
  2. Use a arte como espelho e ponte
    Fotografia, poesia, pintura — qualquer forma de expressão pode ser ferramenta de autoconhecimento e de comunicação com o mundo.
  3. Integre beleza e propósito
    Que seus projetos empresariais carreguem estética e sentido. Não é ornamento: é coerência.
  4. Cultive a sustentação interna antes da externa
    Cuide de suas emoções, do seu tempo, dos seus ciclos. Só quem está inteira pode construir com integridade.
  5. Trabalhe em rede e coletivo
    A Jornada de Vilma e minha se fortaleceu pela parceria. Apoie, convide, crie diálogos entre mulheres, entre arte e sustentabilidade.
  6. Use a arte para educar e inspirar
    Em sua empresa ou comunidade, convide artistas, faça intervenções criativas que evoquem sensações, reflexões e engajamento.

Legado em construção

Resiliência e legado — duas palavras que cruzam meus textos sobre sustentabilidade — têm se revelado, agora, como caminhos concretos: a arte me ensinou que podemos nos reinventar e que o que deixamos para frente não é fruto apenas do que construímos externamente, mas de como nos permitimos florescer por dentro.

Nosso legado será feito de mulheres que se afirmam plenas, que vivem coerentes, que inspiram outras. A arte me trouxe de volta à crença em mim, na missão que abracei: que sustentabilidade comece no ser para irradiar no mundo.

E você, querida leitora — como a arte (em qualquer forma) já te resgatou ou te transformou? Que parte do seu legado já pulsa, pronta para florescer no mundo?

Vamos continuar juntas — pintando, escrevendo, empreendendo — uma vida mais sustentável, íntegra e plena.

Colunista:

Respostas de 2

  1. Cynthia, ler suas palavras é como reencontrar um espelho antigo — aquele onde cabem o tempo, a amizade e o silêncio que a arte ensina.
    Nossa travessia me emociona, porque nela reconheço o poder da escuta, da partilha e da coragem de continuar florescendo, mesmo nas incertezas.
    A arte nos uniu, e continua nos unindo — como um fio invisível que atravessa o ser e o mundo, lembrando que toda criação verdadeira é também um gesto de amor.
    Obrigada
    Vilma Machado

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