
No imaginário coletivo, a figura da mãe ocupa um lugar sagrado — e, paradoxalmente, aprisionante. Venerada como símbolo máximo do amor incondicional, da entrega e da abnegação, a mãe é frequentemente colocada em um pedestal que a separa da sua própria humanidade. Nessa sacralização, uma parte vital de sua existência é sistematicamente apagada: sua sexualidade.
A maternidade, embora profundamente ligada ao corpo e ao desejo, é culturalmente dissociada da sexualidade da mãe. A partir do momento em que uma mulher se torna mãe, parece existir um pacto silencioso — social, familiar e até íntimo — que a desloca do campo do erótico. Ela deixa de ser vista como sujeito de desejo O corpo que deu vida se torna, a partir de então, um território interditado ao prazer.
Historicamente, a figura da mãe foi moldada por estruturas patriarcais que se beneficiam da dicotomia “sagrado ou profano”: a mulher ou é santa e maternal, ou é sexual e, portanto, passível de controle ou punição. Essa divisão impede que a mulher seja múltipla. Na idealização da mãe santa, não há espaço para suas complexidades, angústias, desejos ou contradições. A sacralidade, embora revestida de honra, serve como um instrumento de silenciamento e desumanização.
A sexualidade da mãe é então desqualificada, quando não completamente invisibilizada. Em muitas culturas, é comum a ideia de que, após a maternidade, a mulher “deve” se preocupar apenas com os filhos. Se ela expressa desejo, se busca prazer ou erotismo, pode ser julgada como irresponsável ou imoral — um eco claro das normas que ainda regem o feminino sob os olhos do patriarcado.
A construção da mãe como ser assexual é cruel e limitadora. Ela gera culpa e vergonha, aprisionando mulheres em um papel único, quando, na realidade, elas seguem sendo seres desejantes. A sexualidade não desaparece com a maternidade — ela se transforma, sim, mas continua sendo uma dimensão viva, legítima e necessária da existência feminina, existência humana..
Muitas mulheres relatam sentir-se “culpadas” por querer transar, se masturbar ou mesmo fantasiar, como se o desejo fosse incompatível com o cuidado. Esse conflito interno é agravado por parcerias que também deixam de enxergá-las como amantes, relegando-as apenas à função materna. Assim, mães se tornam invisíveis para si mesmas e para os outros — reduzidas a um único papel.
Pesquisas recentes evidenciam as consequências dessa invisibilidade. Um estudo publicado na BMC Women’s Health revelou que a falta de autonomia sexual em mães jovens está associada a um aumento da solidão social, destacando a importância de fatores de gênero na solidão das mães.
Outro estudo, publicado na Sex Roles, investigou o impacto da vigilância corporal, um reflexo da auto-objetificação, na saúde mental materna e no vínculo mãe-bebê. Os resultados indicaram que mães que apresentaram maior vigilância corporal durante a gravidez relataram mais sintomas depressivos e insatisfação corporal, o que afetou negativamente o vínculo com o bebê e o desenvolvimento socioemocional infantil .
Além disso, uma pesquisa publicada na British Journal of Social Psychology evidenciou que a violação do papel de mãe é percebida de forma mais negativa do que a violação da heteronormatividade, indicando que a sociedade ainda valoriza excessivamente a maternidade como identidade central da mulher .
Resgatar a sexualidade da mãe não é apenas um ato pessoal, mas profundamente político. Significa romper com a lógica que vê a mulher como função e não como sujeito. É necessário criar espaços onde as mães possam falar de seus corpos, seus desejos, suas experiências eróticas — sem culpa, sem vergonha e sem julgamento.
A maternidade pode, sim, ser vivida com prazer, autonomia e presença. E isso inclui uma vida sexual ativa, saudável e coerente com o que aquela mulher deseja — seja em parceria, seja sozinha. É hora de descolonizar o imaginário que associa a maternidade à renúncia total de si.
Precisamos olhar para as mães como mulheres inteiras: complexas, sensuais, falíveis, emocionais e, sobretudo, humanas. A sacralização da maternidade não deve ser uma prisão dourada, mas sim uma escolha consciente, permeável à liberdade. A sexualidade da mãe existe, pulsa e precisa ser reconhecida como parte legítima de quem ela é. Não como um escândalo, mas como uma celebração de sua inteireza.
Feliz Dia das Mães!
Colunista:












