A Gênese do Controle: Como a História e a Religião Forjaram as Correntes Femininas (e Como Quebrá-las Hoje)

A violência e o controle exercidos sobre as mulheres não são um desvio de percurso da sociedade moderna; eles são a própria fundação sobre a qual a nossa civilização foi construída. Para entender a raiz dessa opressão, precisamos olhar para muito antes da formação das grandes cidades, voltando aos tempos em que éramos caçadores-coletores. A dura realidade biológica e histórica é simples: a reprodução humana, por natureza, depende da escolha feminina. Nem todo homem estava destinado a se reproduzir, a não ser que uma mulher o escolhesse. E o que aconteceu quando muitos homens perceberam que não seriam escolhidos? Eles recorreram à força bruta.

O roubo de mulheres, o estupro e a captura tornaram-se ferramentas sistemáticas para garantir a linhagem e o acesso sexual. Quando o homem não conseguia a mulher pelo desejo dela, ele a tomava pela guerra e pela violência. A mulher deixou de ser um ser humano com autonomia de escolha para se tornar o primeiro grande “espólio” da humanidade.

Com o passar dos milênios, a força bruta precisou ser institucionalizada para se manter inquestionável. É aqui que entra a religião, servindo como o verniz moral para justificar atrocidades e garantir a submissão contínua. Mulheres, é urgente que comecem a estudar história de forma crítica e a ler os textos religiosos, como a Bíblia, de fato, interpretando o que está escrito ali na sua literalidade nua e crua.

Parem de acreditar no pastor ou no líder religioso que suaviza o texto, que faz malabarismos retóricos para te imputar culpa e te convencer a aceitar maridos ruins, violentos ou ausentes em nome de uma “família sagrada”. O que está escrito naqueles livros antigos era a lei real, o reflexo exato de como o deus daquela época via as mulheres: como propriedades, seres sem voz, condenadas à escravidão e ao silenciamento.

Quer a prova disso na própria Bíblia? Leia e entenda como a mulher é tratada e impedida de sequer falar em nome do divino:

  • 1 Coríntios 14:34-35 decreta o silenciamento absoluto: “As mulheres devem ficar caladas nas igrejas, pois não lhes é permitido falar; em vez disso, devem ser submissas […] pois é vergonhoso uma mulher falar na igreja.”
  • Números 30:3-8 tira da mulher qualquer autonomia espiritual. Se ela fizesse um voto a Deus, seu pai ou seu marido poderia anulá-lo no mesmo dia. A palavra dela não valia nada perante Deus sem a chancela de um homem.
  • Êxodo 21:7-8 regulamenta o comércio de filhas: “Se um homem vender sua filha como escrava…” mostrando que mulheres e meninas eram literalmente mercadorias nas mãos de seus pais, para serem vendidas e comercializadas.

Essa foi a estrutura montada para te convencer de que a submissão é divina e de que o sofrimento na Terra será recompensado na eternidade. Mas a verdade incontestável é esta: a vida é agora, é hoje. Não sacrifique a sua única existência, a sua sanidade e o seu corpo esperando por um céu que recompense a sua dor. Parem de aceitar homens ruins. A natureza e a história mostram que nem todo homem foi feito para se reproduzir ou para ter uma companheira, e não é seu dever consertá-los ou suportá-los.

Se você acha que essa visão é um exagero do passado, basta observar como as dinâmicas de poder operam no mundo moderno. Há um relato clássico e amplamente conhecido nos bastidores da ajuda humanitária, envolvendo missões da ONU em zonas de crise. Uma funcionária, ao ser instruída sobre a distribuição de recursos, recebeu uma ordem direta e chocante: entregue os sachês de comida apenas e exclusivamente para as mulheres; em hipótese alguma entregue aos homens. Quando ela questionou o porquê, a resposta revelou a face mais cruel do patriarcado: as mulheres repartem a comida com os filhos, os idosos e a comunidade. Os homens, por outro lado, frequentemente retêm a comida para benefício próprio, usando a fome alheia para extorquir favores sexuais de mulheres desesperadas.

Essa dinâmica predatória também fica evidente na própria infraestrutura da nossa sociedade. Quando grandes obras, garimpos ou fábricas isoladas são instaladas, reunindo exclusivamente grandes massas de trabalhadores homens, a sociologia e a segurança pública constatam um fenômeno sombrio: ou se instala a exploração sexual na região (bordéis e prostituição), ou os índices de estupro e violência sexual contra as moradoras locais disparam assustadoramente. O que isso nos diz? Que quando o verniz civilizatório é removido, uma parcela assustadora da socialização masculina se revela pautada puramente no instinto predatório, onde muitos agem apenas buscando controle, força e acesso ao sexo a qualquer custo.

Obviamente, seria intelectualmente desonesto afirmar que não existem homens bons. Eles existem, constroem parcerias justas e respeitam as mulheres. Mas a história humana, os índices de feminicídio e as estatísticas globais de violência nos esfregam na cara que os homens ruins, ou os que se beneficiam passivamente desse sistema violento, existem em um número esmagadoramente maior. O risco é alto demais para que você coloque a sua vida nas mãos de outra pessoa.

E essa estrutura arcaica e controladora não ficou no passado distante. Ela se perpetua de forma violenta e oficial em teocracias modernas, como a do Irã. Não é concebível que uma mulher possa aceitar viver ao lado de onde o homem, por lei divina e estatal, tem permissão para ter múltiplas esposas, enquanto ela sequer tem voz na sociedade.

A realidade no Irã é o espelho exato do que descrevemos sobre os primórdios da opressão: a mulher é calada pela religião e pela obrigatoriedade da burca (ou do chador, no caso iraniano), um símbolo que não é apenas de “recato”, mas de apagamento da sua identidade pública e individualidade. É a institucionalização de que a mulher é um corpo a ser escondido, vigiado e controlado por “guardiões da moralidade” masculinos. Quando você vê o controle absoluto sobre o vestuário feminino e as leis de família baseadas em uma interpretação fundamentalista da Sharia, você está vendo a mesma mentalidade neolítica que tratava mulheres como propriedade, apenas codificada por um Estado moderno.

A luta das mulheres iranianas é a linha de frente dessa guerra milenar pela autonomia do próprio corpo.

Aliados Masculinos na História da Luta Feminina:

Para que sua luta não seja uma guerra isolada e que os homens bons também se engajem, é importante notar que a história nos mostra homens que reconheceram a justiça da luta feminina e se tornaram aliados, muitas vezes agindo como precursores da ideia de “homens da revolução das mulheres” em suas próprias etnias/regiões. Eles não “lideraram” as mulheres, mas abriram caminhos:

  • John Stuart Mill (Inglaterra – Branca/Caucasiana): No século XIX, ele escreveu “The Subjection of Women” (A Sujeição das Mulheres), argumentando que a opressão das mulheres era moralmente errada e socialmente ineficiente. Foi um dos primeiros filósofos a defender o sufrágio feminino de forma estruturada na política britânica.
  • Liang Qichao (China – Asiática): No final do século XIX, ele foi um defensor crucial da educação feminina e do fim da prática de amarrar os pés das mulheres, vendo essas reformas como essenciais para o fortalecimento da nação chinesa e para o fim da submissão delas.
  • Thomas Sankara (Burkina Faso – Negra/Africana): Líder revolucionário nos anos 1980, ele foi radical ao defender que “não há revolução social verdadeira sem a libertação das mulheres”. Ele proibiu o casamento forçado e a circuncisão feminina, promoveu mulheres ao governo e incentivou os homens a partilharem as tarefas domésticas.
  • Frederick Douglass (EUA – Afro-Americana): Nascido escravizado, Douglass foi um abolicionista famoso que participou da Convenção de Seneca Falls em 1848, a primeira grande convenção de direitos das mulheres nos EUA. Ele argumentava que não podia defender a igualdade para homens negros sem defender a igualdade para as mulheres negras e brancas.

Ranking Global de Proteção das Mulheres:

Para trazer dados concretos sobre quais povos estão mais avançados com leis e quais estão piores, devemos recorrer a índices internacionais confiáveis. A metodologia mais reconhecida é o Relatório Global de Lacuna de Gênero (Global Gender Gap Report) do Fórum Econômico Mundial (WEF), complementado por dados da UN Women (ONU Mulheres).

(O ranking a seguir é baseado nos dados do Relatório de 2023/2024 do WEF, que mede paridade em Economia, Educação, Saúde e Política).

De Menos Protegida para Mais Protegida: O Ranking da Desigualdade

OS PIORES (Onde a Mulher é Menos Protegida):

Estes países possuem as piores pontuações em paridade de gênero. Eles frequentemente têm teocracias ou sistemas legais baseados em códigos religiosos patriarcais rigorosos que restringem ativamente os direitos femininos à educação, trabalho, movimento e voz política.

  1. Afeganistão: O pior país do mundo para ser mulher. Sob o regime Talibã, as mulheres foram efetivamente apagadas da vida pública: proibidas de educação secundária e universitária, de trabalhar em ONGs e na maioria dos empregos, de viajar sem guardião masculino e obrigadas ao uso da burca total.
  2. Irã: Como discutido, a teocracia iraniana implementa leis de família altamente discriminatórias (poligamia masculina permitida, divórcio difícil para mulheres, vigilância severa do vestuário e apagamento político). A violência estatal contra mulheres que protestam por autonomia é brutal.
  3. Paquistão: Possui grandes disparidades na participação econômica e na empoderamento político. Questões culturais e regionais, como “crimes de honra” e casamentos forçados, persistem e são pouco punidos pelo Estado.
  4. Chade: Um país onde as disparidades em educação e saúde são gritantes, e a violência baseada em gênero, incluindo mutilação genital feminina, permanece alta, apesar das leis proibitivas.
  5. Mali: Apresenta uma das menores pontuações em empoderamento político feminino e paridade na saúde, com taxas altas de casamento infantil e violência doméstica.

OS MELHORES (Onde a Mulher é Mais Protegida):

Estes países têm as melhores pontuações globais. Eles investem em políticas ativas de igualdade salarial, licença parental equitativa, forte representação feminina na política e sistemas de justiça rigorosos contra a violência doméstica.

  1. Islândia: Líder global há anos. Possui leis que obrigam empresas a provar paridade salarial e forte representação feminina em todos os níveis de poder.
  2. Noruega: Alto nível de igualdade salarial e políticas de apoio à família que permitem que homens e mulheres equilibrem carreira e vida doméstica.
  3. Finlândia: Uma das melhores pontuações em empoderamento político feminino (frequentemente liderada por mulheres) e altos índices de educação feminina.
  4. Nova Zelândia: Pioneira no sufrágio feminino, mantém políticas sociais avançadas e forte proteção legal contra discriminação de gênero.
  5. Suécia: País conhecido por sua “política externa feminista” e sistemas de bem-estar social que suportam a independência econômica das mulheres.

Fontes de Dados:

  • Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum – WEF): Global Gender Gap Report (Edições 2023 e 2024). Este é o índice principal usado para medir a disparidade de gênero.
  • ONU Mulheres (UN Women): Gender Snapshot e relatórios temáticos sobre violência contra a mulher e participação política.
  • Relatórios da Anistia Internacional e Human Rights Watch: Para a situação detalhada em países como Afeganistão e Irã.

E o Brasil?

O Brasil está exatamente no meio da tabela global, o que, na prática, significa que vivemos em um país de contradições cruéis para as mulheres. Não somos um Afeganistão, mas estamos muito, muito longe de ser uma Islândia.

Segundo o Relatório Global de Lacuna de Gênero (Global Gender Gap Report) de 2024, do Fórum Econômico Mundial (WEF), o Brasil ocupa a 74ª posição em um ranking de 146 países. E o dado preocupante é que pioramos: em 2023, estávamos na 57ª posição.

Para entender por que estamos caindo e como é a vida real no nosso país, o relatório divide a vida da mulher em quatro áreas. Veja o que puxa o Brasil para cima e o que nos afunda:

Onde estamos no “Lado Bom” (Onde há paridade)

  • Educação: As mulheres brasileiras estudam mais, formam-se mais nas universidades e têm taxas de alfabetização altíssimas. Aqui, o Brasil tem notas excelentes. Nós fazemos a nossa parte: buscamos o conhecimento e a qualificação.
  • Saúde e Sobrevivência: Temos acesso a sistemas de saúde pública e nossa expectativa de vida é maior que a dos homens.

Onde estamos no “Lado Ruim” (A raiz do controle)

Todo aquele estudo e saúde esbarram em uma barreira de concreto quando a mulher tenta transformar isso em poder real. É aqui que o Brasil despenca:

  • Participação Econômica e Oportunidade: Apesar de sermos mais escolarizadas, ganhamos menos que os homens para fazer o mesmo trabalho. Além disso, somos minoria absoluta em cargos de liderança (diretorias, presidências de empresas) e somos as mais sobrecarregadas com o trabalho doméstico não remunerado.
  • Empoderamento Político: Esse é o nosso pior índice. A representação feminina no Congresso, prefeituras e governos é baixíssima se comparada à média global. Os homens continuam criando as leis e controlando o orçamento do país.

O Alerta Vermelho: A Violência (Fora do Relatório Econômico)

Embora o índice do Fórum Econômico Mundial meça economia e política, existe um dado onde o Brasil está entre os piores do mundo que não pode ser ignorado: a violência de gênero.

O Brasil tem uma das maiores taxas de feminicídio do planeta. Mesmo com leis como a Maria da Penha (que é considerada internacionalmente uma legislação muito avançada), a cultura do “homem dono da mulher” ainda é tão forte que a execução dessa lei falha na proteção diária. Lembra do que falamos sobre o controle em sociedades primitivas? No Brasil, quando o homem percebe que a mulher não quer mais submissão ou quer o divórcio, o instinto predatório de destruição do “espólio” ainda fala mais alto.

Resumo da nossa situação

A estimativa do Fórum Econômico Mundial para 2025 aponta que, no ritmo atual de pequenos avanços e retrocessos, levará cerca de 123 anos para que o Brasil alcance a igualdade de gênero total. Nós não temos 123 anos para esperar. A sua conclusão no texto anterior é a única resposta imediata válida para a brasileira hoje: já que o Estado e a sociedade ainda engatinham na nossa proteção, a independência financeira e intelectual é a nossa principal armadura. Saber fazer dinheiro e ter a própria autonomia é o que permite à mulher brasileira escapar das estatísticas do “lado ruim” e garantir a própria sobrevivência.

Qual é a saída diante de um sistema desenhado por milênios para te usar e te silenciar? A resposta é a independência absoluta.

Mulheres, cuidem de si mesmas e lutem implacavelmente pelos seus direitos. Invistam pesadamente em conhecimento, leiam, estudem as estruturas do mundo, entendam de negócios e dominem o mercado. Trabalhem arduamente para construir a sua própria base financeira. Ser a dona da sua própria vida, do seu próprio projeto e do seu próprio dinheiro é o maior ato de rebelião que uma mulher pode cometer. Quando você tem a sua própria renda, você não precisa tolerar o intolerável por medo de passar fome ou de não ter onde morar. A autonomia financeira e intelectual quebra as correntes que a religião e a história forjaram. Não dependam deles. Sejam independentes, sejam donas de si mesmas e vivam a vida que é de vocês, hoje e agora.

Nós somos tão valiosas, e a nossa liberdade é tão ameaçadora, que a sociedade precisou inventar milênios de dogmas, leis e violências só para tentar nos conter. Ninguém cria correntes para segurar quem não tem força. A verdade é que você já nasceu sendo a dona da p**** toda. O seu único trabalho hoje não é pedir permissão, é simplesmente acordar, retomar o controle e exercer esse poder na prática. Assuma o seu lugar.

Colunista:

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