
Quem olha friamente para os gráficos de temperatura da superfície do Pacífico pode pensar que se trata de mais um assunto distante, restrito aos laboratórios de meteorologia ou às páginas especializadas de economia. Não se engane. Quando os dados apontam para o El Niño mais intenso em pelo menos 80 anos — com águas que desafiam qualquer média histórica e estimativas de impacto severo na segurança alimentar global —, a conversa muda de figura. Como engenheira agrônoma que vive o coração do agronegócio em Sorriso, no Mato Grosso, e como alguém que transita diariamente entre a terra e a estratégia global, eu te digo: esses gráficos contam a nossa história.
Para nós, mulheres líderes e empreendedoras, a sustentabilidade deixou de ser uma pauta bonita para relatórios anuais há muito tempo. Ela é sobre gestão de risco, sobrevivência e inteligência competitiva.
O termômetro global e a nossa realidade local
Os recentes recordes climáticos mostram que o calor acumulado nos oceanos reverbera diretamente na nossa rotina produtiva e empresarial. Não estamos falando apenas de previsões abstratas. Estamos falando de volatilidade, de planejamento de safra redimensionado, de pressões logísticas e de uma urgência inegociável por resiliência territorial.
Quando o Programa Mundial de Alimentos alerta para o risco potencial de milhões de pessoas afetadas pela escassez, a engrenagem do agro global — da qual fazemos parte com tanto orgulho — sente o tremor. A governança de uma propriedade rural ou de uma empresa urbana não pode mais ignorar que o clima dita o ritmo dos negócios. Quem gere com visão de longo prazo entende que adaptar-se não é sinal de fraqueza, mas o ápice da governança moderna.
Conectora de sistemas: por que o ESG estratégico começa na incerteza
Como “Conectora de Sistemas”, enxergo esses fenômenos extremos não como um ponto final, mas como um chamado implacável à ação integrada. O erro clássico é tratar a crise climática como um problema setorizado. O El Niño recorde afeta a agricultura, que afeta a indústria de insumos, que afeta o crédito, que afeta o preço na gôndola e o orçamento das famílias.
Para a mulher empreendedora — seja ela gestora de uma grande operação agrícola, dona de uma startup ou líder corporativa —, a pergunta central não é “como evitar o El Niño?”, mas sim: “como construo um negócio tão robusto que seja capaz de prosperar apesar dele?”
Do dado científico à prática do dia a dia
Integrar a sustentabilidade no cotidiano dos negócios diante de cenários extremos exige três movimentos práticos:
- Gestão baseada em dados, não em achismos: Assim como monitoramos a umidade do solo e as curvas de produtividade, precisamos olhar para os indicadores climáticos e de mercado com a mesma seriedade que olhamos para o fluxo de caixa.
- Visão de paisagem e cooperação: Nenhum negócio é uma ilha. Em Sorriso e em qualquer polo produtivo, a resiliência depende de como cuidamos do nosso entorno — da conservação de nascentes à eficiência no uso de recursos. A sustentabilidade territorial protege o seu portfólio.
- Liderança antifrágil: Líderes inspiradoras não congelam diante da incerteza; elas redesenham rotas. O momento exige coragem para abandonar discursos vazios e adotar práticas de mitigação e adaptação reais.
O super El Niño deste ano é um marco que veio redesenhar as regras do jogo. Que possamos olhar para esses gráficos recordistas não com medo, mas como o combustível necessário para transformar complexidade em estratégia de alto impacto. O futuro do nosso agro e dos nossos negócios depende da lucidez e da força com que agimos hoje.
Colunista












