
A sustentabilidade não é apenas uma pauta ambiental; é um imperativo social, econômico e, acima de tudo, humano. E no epicentro dessa transformação, as mulheres emergem como agentes catalisadoras, enfrentando desafios únicos e forjando soluções inovadoras. Mas, sejamos francas: o caminho não é linear. De acordo com um relatório da ONU, mulheres são desproporcionalmente afetadas pelas mudanças climáticas, mas representam uma minoria nas posições de liderança e decisão sobre o tema. Isso não é apenas uma injustiça, é uma ineficiência estratégica.
Aqui, de Sorriso-MT, onde o agronegócio pulsa e a sustentabilidade se torna cada vez mais tangível, vejo diariamente a força e a resiliência de mulheres que não apenas sonham com um futuro melhor, mas o constroem com as próprias mãos. Mas quais são os principais obstáculos que ainda precisam ser superados para que essa força feminina atinja seu potencial máximo na agenda ESG?
1. A Dupla Jornada: Equilibrando o Lar e a Liderança Sustentável
Para muitas mulheres, a jornada pela sustentabilidade começa dentro de casa. Somos as principais responsáveis pela gestão do consumo, pela educação dos filhos sobre valores ambientais e sociais, e muitas vezes, pela busca por produtos e práticas mais conscientes. Essa carga, embora fundamental, muitas vezes se soma às exigências de uma carreira profissional, onde a sustentabilidade é um campo complexo e em constante evolução.
Imagine a produtora rural aqui do Mato Grosso que, além de gerenciar a fazenda, lida com a logística da casa, a educação dos filhos e ainda precisa se aprofundar nas nuances da certificação de baixo carbono ou do manejo regenerativo. A sobrecarga é real. O desafio aqui é reconhecer e valorizar essa dupla jornada, criando redes de apoio e estruturas que permitam que as mulheres não apenas sobrevivam, mas prosperem em ambas as frentes. Não se trata de escolher, mas de integrar com inteligência e suporte.
2. A Voz Silenciada: Espaço e Reconhecimento em um Campo Dominado
Apesar de sermos maioria em muitas iniciativas de base e na linha de frente da implementação de projetos sustentáveis, a representatividade feminina em conselhos, diretorias e fóruns de decisão ainda é desproporcionalmente baixa. Isso é particularmente visível em setores como o agronegócio e a indústria, onde a “cultura masculina” ainda prevalece em muitos espaços.
Quantas vezes presenciamos mulheres com vasto conhecimento e experiência em sustentabilidade tendo suas ideias minimizadas ou até mesmo apropriadas em reuniões? O desafio é romper com essa invisibilidade. Precisamos de mais mulheres em posições de liderança para moldar políticas, estratégias e investimentos em sustentabilidade. Isso significa não apenas lutar por essas cadeiras, mas também criar uma cultura que valorize e amplifique a voz feminina, reconhecendo a perspectiva única que as mulheres trazem para a solução de problemas complexos. Minha própria jornada, como engenheira agrônoma e especialista em sustentabilidade, é um testemunho da necessidade de ocupar esses espaços e usar a autoridade técnica para guiar o caminho.
3. A Complexidade da Transição: Do Idealismo à Prática Estratégica
A sustentabilidade, em sua essência, é um campo que exige uma visão holística e estratégica. Não basta ter boas intenções; é preciso traduzi-las em ações concretas, mensuráveis e economicamente viáveis. Para mulheres empreendedoras e líderes, o desafio é navegar pela complexidade das regulamentações (como a EUDR, que exige rastreabilidade e desmatamento zero), pelas inovações tecnológicas e pelas demandas de mercado, transformando-as em oportunidades de negócio.
Aqui em Sorriso, por exemplo, a pressão por cadeias de suprimentos mais transparentes e responsáveis é imensa. As mulheres que lideram fazendas ou cooperativas precisam dominar não apenas a produção, mas também a gestão de dados, a conformidade legal e a comunicação com stakeholders globais. O desafio é capacitar e empoderar essas mulheres com as ferramentas e o conhecimento necessários para que elas possam não apenas entender, mas implementar, gerenciar e liderar essa transição para um modelo de negócio verdadeiramente sustentável e lucrativo. É por isso que insisto na formação de especialistas, porque a prática exige expertise.
Conectando Sistemas, Transformando Realidades
Superar esses desafios não é apenas uma questão de equidade, é uma estratégia inteligente para o futuro do nosso planeta e da nossa economia. Mulheres trazem uma perspectiva de colaboração, de cuidado e de resiliência que são cruciais para a agenda ESG.
Minha mensagem para você, mulher empreendedora e líder, é clara: sua jornada na sustentabilidade é vital. Não subestime o poder da sua voz, da sua visão e da sua capacidade de conectar sistemas. Busque conhecimento, construa sua rede, ocupe seu espaço e transforme os desafios em degraus para uma liderança ainda mais impactante. O futuro sustentável não será construído sem você, mas por você. Vamos juntas, com estratégia, coragem e muita ação prática.
Colunista:












