
Recentemente, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) deu um passo atrás, transformando em voluntária a adoção dos padrões internacionais de reporte de sustentabilidade. Uma decisão que, para muitos, pode parecer um alívio burocrático, mas que, para mim, reafirma uma verdade que venho defendendo há anos: a verdadeira sustentabilidade não se mede por relatórios, mas pela fibra moral e pelas ações diárias de quem está no comando.
Para nós, mulheres empreendedoras e líderes que construímos negócios com propósito e suor, essa notícia é um lembrete crucial: a sustentabilidade genuína não pode ser terceirizada para uma equipe de compliance ou resumida a um documento bonito. Ela é a alma do negócio, o reflexo da liderança. E se a CVM diz que o reporte é voluntário, então a nossa responsabilidade de ser sustentável se torna ainda maior, mais autêntica e, paradoxalmente, mais urgente.
Coerência: O Pilar Invisível da Liderança Sustentável
Quantas vezes vimos empresas alardearem suas práticas sustentáveis em campanhas de marketing, enquanto, nos bastidores, a realidade era outra? Esse “greenwashing” – intencional ou não – é a antítese da coerência. A sustentabilidade, para ser prática e eficaz, precisa ser um valor intrínseco, não uma camada de verniz.
Em Sorriso, no coração do agronegócio, lidamos com essa realidade diariamente. Não adianta um produtor rural investir em maquinário de ponta e em tecnologias de baixo carbono se, ao mesmo tempo, suas decisões sobre manejo de solo, uso de água ou tratamento de resíduos não refletem esse compromisso. A coerência se manifesta quando a fazenda implementa a rotação de culturas não apenas para aumentar a produtividade, mas porque entende o valor da saúde do solo a longo prazo. É quando a gestão de pessoas no campo prioriza a segurança e o bem-estar dos colaboradores, porque reconhece que não há sustentabilidade ambiental sem sustentabilidade social.
O Poder do Exemplo: Liderar Pelo Fazer
Não há palestra ou treinamento que supere o poder do exemplo. Se a líder chega de carro sozinha todos os dias e depois exige que a equipe use transporte público ou carona, a mensagem é clara: “faça o que eu digo, não o que eu faço”. Em contrapartida, quando a líder de uma cooperativa agrícola, por exemplo, se engaja pessoalmente em programas de capacitação para agricultores familiares, mostrando como a certificação RTRS para soja sustentável pode abrir novos mercados e agregar valor, ela não apenas ensina: ela inspira.
Lembro-me de uma empresária aqui da região que decidiu instalar painéis solares em sua propriedade rural, não porque fosse uma exigência, mas porque acreditava no potencial da energia limpa. Ela não apenas reduziu seus custos, mas se tornou uma referência para os vizinhos, que começaram a procurá-la para entender o processo. Esse é o tipo de liderança que gera uma onda de transformação, sem a necessidade de um relatório para comprovar o impacto.
Pequenas Decisões, Grande Impacto
A sustentabilidade não é um projeto grandioso que se inicia e termina. É uma série contínua de pequenas decisões. É escolher fornecedores locais e éticos, mesmo que custe um pouco mais. É otimizar o uso de recursos no escritório, desde a impressão frente e verso até a separação correta do lixo. É questionar o “sempre foi assim” e buscar soluções mais eficientes e menos impactantes.
No meu trabalho com certificações, vejo que muitas vezes a mudança começa com um insight simples. Uma produtora rural que decide implementar um sistema de reuso de água na sua propriedade, ou uma empreendedora que opta por embalagens biodegradáveis para seus produtos artesanais. Essas não são decisões que necessariamente entrarão em um relatório da CVM, mas são elas que, somadas, constroem uma cultura empresarial verdadeiramente sustentável.
Mulheres no Comando: A Força da Liderança Feminina na Sustentabilidade
Nós, mulheres, temos um papel crucial nessa jornada. Nossa capacidade de multitarefa, nossa visão holística e, muitas vezes, nossa sensibilidade para as interconexões entre pessoas, planeta e lucro nos posicionam de forma única para construir culturas organizacionais mais sustentáveis. Trazemos para a mesa uma perspectiva que valoriza a colaboração, a empatia e o cuidado, elementos essenciais para uma transição sustentável e justa.
Desde a gestão da fazenda até a liderança de grandes empresas, estamos provando que é possível inovar, crescer e gerar valor sem comprometer o futuro. Em Sorriso, vejo mulheres à frente de cooperativas, de indústrias, de negócios de impacto social, todas elas tecendo uma rede de práticas que, juntas, formam o tecido de uma economia mais resiliente.
A decisão da CVM nos lembra que, no fim das contas, a sustentabilidade que realmente transforma não é aquela que aparece nos relatórios. É aquela que aparece nas decisões que ninguém está vendo, mas que moldam o caráter e o futuro dos nossos negócios e do nosso planeta. É a nossa liderança, no dia a dia, que escreve a verdadeira história da sustentabilidade.
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