
Sempre falo de sustentabilidade.
Minha coluna é sobre isso. Minha carreira é sobre isso. Minha missão, de alguma forma, também.
Mas, sendo bem honesta… às vezes eu me sinto repetitiva.
Às vezes, cansativa.
E mais do que isso — em alguns momentos, deixo que a síndrome da impostora me domine. Começo a duvidar do meu próprio discurso.
Porque, veja… eu trabalho com sustentabilidade. Eu implemento estratégias, participo de projetos, discuto isso diariamente com empresas, com produtores, com equipes. Para mim, faz parte do meu repertório.
Mas aí vem aquela pergunta que, de vez em quando, me atravessa com força:
E se eu não trabalhasse com isso?
E se eu fosse uma empresária de outra área, completamente fora desse universo?
Como seria, de verdade, a sustentabilidade no meu dia a dia? Na minha empresa?
Será que eu teria tempo?
Será que eu teria clareza?
Será que eu teria paciência?
Ou será que eu também estaria cansada de ouvir falar sobre isso?
Quando a sustentabilidade cansa
Essa é uma reflexão que pode parecer desconfortável — mas ela é necessária.
Porque existe, sim, um certo cansaço da sustentabilidade acontecendo.
E ele não vem da causa.
Ele vem da forma como estamos falando dela.
Nos últimos anos, a sustentabilidade virou pauta obrigatória.
Virou meta.
Virou relatório.
Virou indicador.
Virou… discurso.
E, no meio disso tudo, ela começou a perder algo essencial: o sentido.
Quando tudo vira prioridade, nada é prioridade.
Quando tudo vira discurso, ninguém sabe mais por onde começar.
E talvez seja isso que esteja acontecendo com muitas empresas — e com muitas pessoas.
Do excesso de informação à paralisia
Hoje temos informação demais.
Sabemos o que precisa ser feito.
Sabemos dos riscos, dos impactos, das consequências.
Mas saber não significa agir.
Pelo contrário — em muitos casos, o excesso de informação gera paralisia.
A sensação de que é tudo grande demais, complexo demais, distante demais.
E aí, no meio dessa confusão, a sustentabilidade deixa de ser prática…
e vira mais uma cobrança.
Mais uma pressão.
Mais uma “coisa a fazer”.
E isso, para quem está tocando um negócio, liderando uma equipe, pagando contas e resolvendo problemas reais todos os dias… pesa.
A pergunta que precisamos fazer (de verdade)
Foi por isso que comecei a me provocar com aquela pergunta:
Se eu não trabalhasse com sustentabilidade, o que faria sentido para mim?
E essa pergunta muda tudo.
Porque ela tira a sustentabilidade do lugar técnico e traz para o lugar real.
Para o lugar possível.
Para o lugar humano.
Talvez a sustentabilidade não comece com grandes projetos.
Nem com relatórios complexos.
Nem com metas internacionais.
Talvez ela comece com perguntas simples:
- Onde estou gerando desperdício sem perceber?
- Minhas decisões estão olhando só para o agora ou também para o depois?
- Minha empresa cresce de forma saudável… ou apenas cresce?
Sustentabilidade não pode ser peso — precisa ser caminho
Se a sustentabilidade virou um peso, estamos fazendo algo errado.
Ela não deveria ser mais uma obrigação.
Ela deveria ser uma forma melhor de fazer o que já fazemos.
E aqui entra algo que tenho aprendido — e reaprendido — ao longo da minha trajetória:
sustentabilidade não precisa ser perfeita para ser verdadeira.
Talvez o problema não seja a falta de ação.
Talvez seja a expectativa de fazer tudo, de uma vez, do jeito certo.
E isso, sinceramente, não é sustentável.
A reconexão que precisamos fazer
Talvez este seja o momento de dar um passo atrás.
Respirar.
E reconectar com o essencial.
Sustentabilidade não é sobre parecer sustentável.
É sobre ser coerente.
É sobre tomar decisões melhores — mesmo que pequenas.
É sobre ajustar rotas.
É sobre construir, aos poucos, um modelo mais equilibrado.
E isso vale para empresas.
Mas vale, principalmente, para nós.
Quando o discurso encontra a verdade
Volto então para mim.
Para a mulher que escreve sobre sustentabilidade, que trabalha com isso, que acredita profundamente nesse caminho — mas que, sim, também se questiona.
E talvez seja exatamente esse o ponto que me faz continuar:
eu não tenho todas as respostas.
Mas tenho disposição para fazer perguntas melhores.
Tenho disposição para ajustar, repensar, reconstruir.
E, principalmente, tenho consciência de que sustentabilidade não é um lugar onde se chega —
é um caminho que se percorre.
Um convite (sem pressão)
Se você leu até aqui e, em algum momento, também sentiu esse cansaço…
Está tudo bem.
Você não precisa fazer tudo.
Você não precisa saber tudo.
Você não precisa ser perfeita.
Mas talvez possa começar por algo simples:
trazer mais consciência para o que já faz.
E, a partir daí, ir ajustando.
Sem culpa.
Sem pressão.
Sem discurso vazio.
Porque, no final…
Sustentabilidade não pode ser mais uma coisa que esgota.
Ela precisa ser algo que sustenta.
Você.
Seu negócio.
Suas escolhas.
Seu futuro.
E talvez seja exatamente aí que a gente precisa voltar a colocar energia em 2026:
não em falar mais sobre sustentabilidade…
mas em viver melhor aquilo que realmente faz sentido. 🌿
Colunista:












